Lançamento

Capa do livro Laço e estrela
Laço e estrela, de Marcelo Augusto de Moura · Editora Dialética

Há histórias que atravessam a madrugada como o vento que sopra sobre o campo: chegam carregando o cheiro da terra, o passo dos cavalos e a memória de quem laçou bois desgarrados sob a proteção do céu. É desse território, entre o trabalho duro dos homens e a atuação dos espíritos que velam por eles, que nasce Laço e estrela, obra de Marcelo Augusto de Moura que acaba de chegar ao catálogo. Mais do que um romance de gerações, o livro é uma travessia pela figura do Boiadeiro, essa Linha de Trabalho tão conhecida e cultuada na Umbanda, e uma tentativa serena de mostrar que, sobre ela, ainda há muito por se saber.

Uma família, três caminhos e o campo como escola de vida

O ponto de partida é modesto e universal. Em uma família simples, unida pelo trabalho e pela fé, três irmãos, João, Pedro e José, crescem ouvindo as histórias do pai boiadeiro. É desse chão que a narrativa parte, no capítulo de abertura, para acompanhar como cada um deles vai desenhar o próprio destino. João aprende com o pai os princípios da vida no campo: a responsabilidade, a cautela, a coragem e, sobretudo, a ação, esse gesto que resolve antes mesmo que os outros percebam o problema. Pedro e José, por sua vez, seguem por trilhas distintas, e é justamente na diferença entre os irmãos que o livro instala uma de suas ideias centrais: somos aquilo que escolhemos, e cada escolha inscreve consequências.

Marcelo Augusto de Moura constrói esses primeiros capítulos com a paciência de quem conhece o ritmo da lida. A partida de João para seguir a profissão do pai é também uma reflexão sobre despedida, tempo, lar e continuidade, temas que retornarão, transformados, quando a morte começar a operar na história não como fim, mas como passagem.

Campos de flores, campos de pedras

Se há doçura na infância narrada, o autor não recua diante da dureza do mundo. O quinto capítulo, cujo título já anuncia a dualidade, coloca Pedro diante da escravidão e o lança em busca de conhecimento, enquanto José transforma a terra e enfrenta a inveja e os interesses alheios. É nesse arco que Laço e estrela revela sua vocação: usar a saga familiar para discutir dignidade, preconceito e a distância entre o valor de um ser humano e aquilo que ele possui.

O encontro de José com Vera abre um dos veios mais sensíveis do romance. Juntos, os dois erguem uma casa de acolhimento e igualdade, enfrentam o preconceito religioso e social e vivem, também, a perda. Mais adiante, será Pedro quem intervém para salvar um homem negro injustamente acusado, empregando a própria riqueza não como privilégio, mas como instrumento para revelar a força da verdade diante da violência. São passagens que dão carne a uma das teses do livro: o amor, a solidariedade e o serviço ao próximo valem mais do que a fortuna, o título ou o reconhecimento social.

O que é, afinal, um Boiadeiro

À medida que avança, a narrativa alarga o próprio horizonte. O Boiadeiro deixa de ser apenas o homem sobre o cavalo para se revelar presença espiritual, trabalhador incansável que conduz, protege e resgata. O livro é generoso ao caracterizar esses guias, e o faz sem idealização barata. Logo na abertura, o narrador fixa o retrato moral que sustentará todas as páginas seguintes:

"Todo Boiadeiro carrega a fé e o amor, a retidão no fazer, a honestidade nas palavras e, sempre, a coragem."

Essa definição, que o próprio livro amplia no capítulo em que João percorre povoados e auxilia os pobres, insiste que o Boiadeiro é mais do que uma profissão ou uma imagem terrena. Homens práticos, diretos, que podem parecer rudes a quem não os observa com atenção, eles mergulham nas trevas para trazer uma flor sem temer os espinhos, assim como buscam, na terra, o boi desgarrado em galopes sem fim. A metáfora do resgate, central na obra, une o gesto do laçador ao do espírito que ampara quem se perdeu.

A morte como travessia e os fios que não se rompem

A partir da segunda metade, Laço e estrela cruza deliberadamente a fronteira entre os planos. João, o filho, desencarna e passa ao trabalho espiritual dos Boiadeiros; depois é a vez de João, o pai, despedir-se em paz e ser recebido do outro lado. Aqui a obra abraça de frente sua ambição maior: descrever a realidade espiritual com pés no chão, retirando-a das idealizações. O autor mostra as faixas, as cidades e os trabalhadores desse plano, a entrega de uma estrela a João, a formação de grupos que atuam nas trevas para resgatar espíritos sofredores sob a luz de Cristo.

É também nessa etapa que o livro formula sua compreensão da continuidade entre os mundos. A vida material e a espiritual são partes de um mesmo tecido, e os vínculos entre pessoas, animais, guias e espíritos atravessam gerações e encarnações. O capítulo dedicado aos atributos dos Boiadeiros oferece a chave dessa permanência:

"Não há esquecimento, mas adormecimento, ficando os fios do passado ligados aos espíritos, mesmo quando encarnados."

Desse princípio nascem as passagens finais, em que Boiadeiros, Exus e forças espirituais protegem o nascimento de Miguel e reafirmam os laços entre passado, presente e futuro. A missão de João de amparar um espírito reencarnado em um corpo fragilizado dá rosto concreto a essa ideia de proteção que se estende de uma vida a outra.

A quem este livro se dirige

Fechando o círculo, a obra reúne os símbolos, as funções, as alianças e os princípios dos Boiadeiros na Umbanda, com destaque para a fé, a humildade, a lealdade, o amor e a evolução espiritual. Na despedida, os guias recebem a bênção de Jesus e renovam o compromisso de semear amor, seguir protegendo, acolhendo e resgatando os filhos de Deus.

Laço e estrela conversa com muitos leitores ao mesmo tempo. Fala a quem cultua a Umbanda e deseja aprofundar a compreensão dessa Linha de Trabalho, mas também a quem busca uma narrativa de fôlego sobre família, destino e superação. O laço e a estrela do título funcionam, ao longo das páginas, como as duas metades de uma mesma promessa: o laço que resgata quem se perdeu, a estrela que orienta quem caminha. Marcelo Augusto de Moura, que compartilha parte de seu universo nos perfis @maaumoura e @sagradocoracao.oc, oferece uma obra que trata a espiritualidade com respeito e a literatura com cuidado, lembrando que as histórias podem ser contadas de muitos jeitos, e que este é, com convicção, mais um deles.

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Laço e estrela já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

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