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Poucas coisas são tão brasileiras quanto o gotejar de um alambique. Pouco depois da chegada dos portugueses, os primeiros alambiques já produziam o destilado que viria a se tornar o mais simbólico do país, e desde então a trajetória da bebida e a do Brasil caminham lado a lado. É esse percurso que A história líquida do Brasil: as quatro ascensões sociais da cachaça, de Washington Vieira de Aquino, traz agora ao catálogo da Editora Dialética. O livro é uma investigação leve, bem-humorada e original sobre como um produto marginalizado durante muito tempo atravessou os séculos até ocupar seu lugar entre as grandes eaux-de-vie do mundo.
A obra chega para quem gosta de história social, de cultura popular e, claro, de uma boa conversa de balcão. O tom convidativo, porém, não deve enganar ninguém. Por trás dele há um trabalho de pesquisa que cruza documentos, imprensa, música, literatura e culinária para sustentar uma tese ousada: entender a cachaça é, em última análise, entender a formação e a evolução do próprio povo brasileiro.
Uma bebida de mil nomes antes mesmo do primeiro capítulo
A leitura começa de um jeito curioso. Antes da introdução, Aquino abre o livro com uma extensa lista de sinônimos da palavra cachaça, que reúne denominações populares, regionais e estrangeiras. A enumeração funciona como um aperitivo e mostra, logo de saída, o quanto a bebida se espalhou pela língua e pela imaginação do país.
Na sequência vem um passeio pela chamada cachaça esotérica: os usos medicinais populares, as aplicações religiosas e as associações da bebida a santos e rituais. São páginas que revelam uma dimensão pouco lembrada do destilado, que não esteve apenas nos copos, mas também nos altares, nas rezas e nos remédios caseiros.
Do alambique colonial à resistência contra Portugal
Na introdução, o autor apresenta a ideia que dá nome ao livro: ao longo da história, a cachaça viveu ascensões sociais distintas. A primeira delas foi construída internamente, quando a bebida passou a ser valorizada como símbolo de brasilidade e de resistência ao colonialismo português. A obra situa o clímax desse movimento nos anos 1850, num processo que caminhou de dentro para fora.
O primeiro capítulo, dedicado à história da cachaça, acompanha essa trajetória desde a origem colonial, no contexto da cana-de-açúcar. O leitor encontra a bebida enredada na economia, na escravidão e nos movimentos de afirmação nacional, mas também no preconceito que se consolidou com a expansão dos padrões europeus e com a marginalização de seus consumidores. O capítulo avança até os dias de hoje, com as políticas recentes de valorização e exportação.
Ao fechar esse percurso, o autor oferece uma síntese que resume bem o espírito do livro:
“Como podemos concluir, a cachaça esteve presente praticamente em todos os momentos importantes de nossa história. Variou de status, mas sempre esteve presente.”
Quando a arte cantou a cachaça como tristeza e vício
O segundo capítulo talvez seja o mais saboroso para quem ama a cultura brasileira. Aquino examina como a cachaça foi, e é, comunicada nas formas artísticas: literatura, poesia, música, folclore, culinária e coquetelaria. Em vez de apenas listar aparições, ele as classifica em representações festivas, nostálgicas, pejorativas e associadas ao alcoolismo.
O resultado é um retrato revelador. Durante boa parte do século XX, mostra o livro, a comunicação artística e popular tratou a bebida principalmente como companheira da pobreza, da tristeza, da violência, do vício e de um cotidiano marginalizado. É nesse ponto que a obra faz uma de suas afirmações mais contundentes: a cachaça, segundo o livro, “durante o século XX praticamente inteiro, até os anos 80 mais precisamente, figurava apenas nos noticiários policiais, na literatura especializada”.
A leitura desse capítulo convida a reouvir canções e reler versos conhecidos com outros olhos. O leitor passa a perceber como o imaginário sobre a bebida foi moldado por aquilo que se escolheu cantar e contar.
O prestígio que veio de fora e mudou o olhar de dentro
Se a primeira ascensão aconteceu de dentro para fora, a mais recente seguiu o caminho inverso. Essa é a tese central do terceiro capítulo, dedicado à mídia e à cachaça hoje. Aquino analisa matérias nacionais e estrangeiras que passaram a apresentar a bebida como produto brasileiro sofisticado, sobretudo por causa de seu sucesso internacional.
O argumento é tão simples quanto provocador: o consumidor brasileiro tende a aceitar a cachaça como bebida refinada quando percebe que ela foi aprovada lá fora. Nesse processo, a mídia tem papel decisivo. O livro acompanha a ascensão da caipirinha, a entrada da cachaça em circuitos de consumo sofisticado e o conjunto de fatores que sustentam essa revalorização:
- políticas governamentais voltadas à qualidade;
- melhoria dos processos produtivos;
- proteção do nome cachaça;
- expansão das exportações;
- aproximação com a gastronomia e a coquetelaria.
Os anexos reforçam esse panorama ao reproduzir matérias e textos sobre produção, qualidade, exportação, consumo, gastronomia, televisão, comércio eletrônico e valorização social da bebida. Juntos, formam um pequeno acervo para quem quiser se aprofundar no tema.
Brindar com responsabilidade também faz parte da história
Uma obra que celebra a cachaça poderia facilmente fugir de seu lado sombrio. Não é o caso. Aquino dedica um texto específico ao alcoolismo, trata o álcool como droga lícita e discute os riscos da dependência. A postura é franca desde a primeira linha:
“Não é razoável se falar em Cachaça com responsabilidade sem encarar o problema do alcoolismo. Sem dúvida, é um problema muito sério.”
É aqui que aparece outra distinção importante do livro. De um lado está a cachaça artesanal, associada à qualidade, à tradição e a valores culturais. Do outro, o produto industrial barato que circula sob o mesmo nome e que, segundo a obra, aparece com mais frequência relacionado ao alcoolismo. A separação ajuda a entender por que o preconceito contra a bebida durou tanto tempo e por que sua revalorização passa, necessariamente, pela qualidade.
Um reconhecimento que ainda está por se completar
Na conclusão, o autor amarra os fios da pesquisa e afirma que foi a mídia que promoveu a recente ascensão social da cachaça. O livro, no entanto, não termina em tom de vitória definitiva. Para Aquino, o reconhecimento dos valores históricos e culturais da bebida continua incompleto, e é justamente essa lacuna que a obra se propõe a ajudar a preencher.
Com um registro ensaístico e investigativo, que combina história, sociologia, jornalismo e cultura, A história líquida do Brasil serve a públicos variados: estudiosos da identidade nacional e da comunicação, profissionais da gastronomia e da produção de bebidas, apreciadores curiosos e qualquer leitor interessado nos efeitos sociais do consumo de álcool no país. O autor, que também pode ser encontrado no Instagram como @wawinemanwa e @blueprodutora2, faz um convite irrecusável para olhar o Brasil através do copo.
A chegada do livro ao catálogo merece um brinde. Quem abrir suas páginas vai descobrir que, por trás de cada dose, existem séculos de trabalho, luta, preconceito e reconquista. Saúde!
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A história líquida do Brasil: as quatro ascensões sociais da cachaça já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.
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