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Capa do livro As alterações climáticas e a influência na produção de alimentos e energia
As alterações climáticas e a influência na produção de alimentos e energia, de ELISABETE ALOIA AMARO · Editora Dialética

Secas que racham o solo, enchentes que arrastam lavouras inteiras, preços de alimentos que disparam nas gôndolas e uma matriz energética que precisa se reinventar sem deixar de produzir: é nesse terreno instável que se planta As alterações climáticas e a influência na produção de alimentos e energia, obra coletiva organizada por Elisabete Aloia Amaro que chega agora ao catálogo da Editora Dialética. Reunindo Direito Ambiental, Direito Agrário, ciência, tecnologia e políticas públicas, o livro encara uma pergunta que deixou de ser abstrata para virar rotina no campo e na mesa do brasileiro: o que acontece com a comida e a energia quando o clima muda?

Um problema que começa no céu e termina no prato

O ponto de partida da coletânea é uma constatação incômoda: as alterações climáticas não são apenas um tema ambiental, mas uma ameaça direta a direitos fundamentais. O primeiro capítulo trata a segurança alimentar e nutricional como valor a ser defendido com produção agrária sustentável, precaução e políticas públicas eficazes, e sintetiza a urgência do debate em uma frase que dá o tom do volume inteiro.

"As mudanças climáticas representam uma das maiores ameaças contemporâneas à efetivação dos direitos fundamentais à segurança alimentar e nutricional no Brasil."

A passagem, extraída das considerações finais desse capítulo do livro, costura clima, produção agrícola, preços dos alimentos e vulnerabilidade social em um único nó. E há aqui uma defesa que atravessa a obra: a de que alimentar as pessoas não pode ficar refém dos ciclos políticos. Ainda na abertura, os autores propõem, nas palavras do próprio livro, "criar uma visão e metodologia classificando a produção de alimentos como acima das ideologias políticas de nossos governantes", em nome de uma política agrícola contínua, orientada pelo bem comum e pela redução da fome.

Da cana ao boi: o mapa produtivo sob pressão

Longe de ficar no diagnóstico genérico, a coletânea desce ao chão da produção brasileira e examina, setor por setor, onde o clima aperta e onde estão as saídas. O capítulo sobre bioenergia analisa a relação entre clima, a sustentabilidade do RenovaBio e a produção integrada de alimentos, açúcar, etanol e bioeletricidade, apoiado em estudos de caso em Alagoas. Outro capítulo se debruça sobre a resiliência climática da pecuária bovina, articulando recuperação de pastagens, sistemas integrados, inovação, compliance e inclusão produtiva.

Esse percurso desenha um retrato plural do agronegócio nacional, no qual convivem tanto os riscos quanto os instrumentos de resposta. Entre os temas percorridos pela obra estão:

  • a produção de cana-de-açúcar e sua articulação com a transição energética;
  • a recuperação de pastagens e os sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta;
  • a agricultura de baixo carbono e os instrumentos do Plano ABC+;
  • o uso de inteligência artificial e imagens de alta resolução no monitoramento ambiental.

A tese que amarra esse conjunto é clara: tecnologias de baixa emissão, sistemas integrados e programas como o RenovaBio podem, ao mesmo tempo, mitigar o clima e sustentar a geração de alimentos e energia, desde que sustentados por fiscalização, coordenação federativa, assistência técnica, financiamento acessível e atenção aos pequenos produtores.

O direito como bússola da transição

Se o clima é o problema e a tecnologia é parte da solução, o fio condutor da obra é o papel estruturante do Direito. Vários capítulos exploram a governança jurídica necessária à produção sustentável de alimentos e energia, o papel constitucional do Estado na segurança alimentar, o controle estatal do agronegócio e a articulação entre inovação tecnológica e regulação. A coletânea insiste em conceitos que sustentam essa arquitetura: a função social e socioambiental da propriedade, o dever de preservação ambiental e o princípio da precaução.

É nessa chave que o livro define, em um de seus capítulos sobre a pecuária, a missão que atribui à ordem jurídica: o Direito, afirma a obra, "orienta políticas públicas, regula incentivos econômicos e tecnológicos, estabelece limites de uso e promove mecanismos de compensação ecológica e financeira". Não se trata, portanto, de opor produção e meio ambiente, mas de desenhar as regras que tornam possível produzir dentro dos limites do planeta.

Da omissão adaptativa aos satélites: novos campos de disputa

Alguns dos capítulos mais instigantes abrem frentes ainda pouco exploradas na literatura jurídica brasileira. Há uma análise da responsabilidade civil por perdas agrícolas decorrentes de eventos climáticos extremos, com atenção especial à chamada omissão adaptativa e aos elos da cadeia agroalimentar. Outro capítulo examina o uso de inteligência artificial e imagens de alta resolução no combate ao desmatamento, transformando o monitoramento remoto em ferramenta de compliance ambiental e regulação preventiva.

O olhar também se alarga para fora das fronteiras e para além do presente. A obra discute os movimentos migratórios ligados às mudanças climáticas, à degradação ambiental e à escassez de alimentos; compara as respostas jurídicas de Brasil e Espanha à insegurança alimentar; e relaciona ética, aquecimento global e Direito do Agronegócio. O capítulo de fechamento, dedicado aos desafios do Direito Ambiental no Antropoceno, encerra o volume com um apelo que soa quase como manifesto.

"O futuro exige coragem para mudar estruturas, desafiar interesses e reinventar valores. A crise climática é também uma crise da imaginação política"

A frase, retirada das considerações desse capítulo do livro, resume bem o espírito da coletânea: reconhecer os limites institucionais do presente e, ainda assim, apostar na transformação política, técnica e ética como caminho possível.

Para quem lê, uma caixa de ferramentas

Com quatorze capítulos e abordagem declaradamente interdisciplinar, As alterações climáticas e a influência na produção de alimentos e energia foi pensado como material de trabalho, e não apenas de leitura. O tom é acadêmico e expositivo, ancorado em legislação, dados empíricos, referências científicas e estudos de caso que vão de Alagoas a São Paulo, passando pelo diálogo comparado com a Espanha. A obra dá peso à cooperação entre Estado, setor produtivo, comunidade científica e sociedade civil, e não perde de vista a proteção de grupos vulneráveis e da agricultura familiar.

O público que mais se beneficia é amplo e reconhecível: pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais de Direito, Direito Agrário e Direito Ambiental, mas também quem atua no agronegócio, na energia, nas políticas públicas e na agenda de sustentabilidade. Para esses leitores, o livro funciona como subsídio à formação acadêmica e ao desenho de normas, mecanismos regulatórios, políticas e práticas voltadas à produção agroalimentar e energética.

Em um país que é, ao mesmo tempo, potência agrícola, protagonista da transição energética e território exposto a secas, enchentes e perdas produtivas, a chegada desta coletânea ao catálogo da Dialética preenche uma lacuna evidente. Organizada por Elisabete Aloia Amaro, a obra reúne análises que ajudam a pensar o clima não como um problema distante, mas como a questão que já define, hoje, o que colocamos no prato e como acendemos a luz.

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As alterações climáticas e a influência na produção de alimentos e energia já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

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