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Há livros de memórias que se contentam em lembrar; outros tentam entender por que a vida tomou o rumo que tomou. Uma em um milhão, de Lenita Siqueira de Carvalho Medeiros, que chega agora ao catálogo da Editora Dialética, pertence ao segundo grupo. Nascida na fazenda Bananeira, no interior do Piauí, filha de uma família simples, a autora percorre o caminho que a levou do trabalho em um supermercado à aviação, da gerência numa companhia aérea à fundação da própria agência de turismo, das primeiras viagens à Europa às peregrinações à Terra Santa, num total de mais de 66 países visitados. O resultado é um relato que pergunta, com franqueza, como se forma uma trajetória de ascensão e o que ela custa.
Uma autobiografia que trata a origem como ponto de partida, não como sentença
O problema que atravessa o livro é antigo e segue atual: como alguém vindo de um contexto de escassez, sem rede de proteção, constrói autonomia num mundo que não foi pensado para ela? Lenita não responde com fórmulas. Responde com episódios. A introdução, intitulada "Eu nasci para o mundo", já anuncia a vocação para o movimento, a centralidade da fé e o compromisso de registrar honestamente a própria história, incluindo o que por muito tempo preferiu calar.
Os primeiros capítulos reconstroem a infância na fazenda, a influência da mãe, a amargura do pai, a formação esportiva e um desejo precoce de conhecer o mundo. Em seguida vem a mudança para a cidade, com a experiência de viver de favor, a humilhação e a escassez. É nesse trecho que o livro mostra sua aposta interpretativa mais forte: a diferença social, em vez de imobilizar, é convertida em combustível. Ao tratar da infidelidade paterna e da submissão materna, a autora descreve o momento em que entendeu que precisava "se salvar primeiro", fazendo do estudo e do trabalho os instrumentos de uma independência que não podia esperar.
Da Vasp à AeroVip, uma carreira construída sobre relacionamento e reputação
A virada vem com uma indicação que a tira do supermercado e a leva à Vasp, experiência que a autora entende como decisiva. A partir daí, o livro se transforma também num estudo prático sobre serviço. Lenita descreve um atendimento baseado em presença, relacionamento, excelência, metas e estudo, com atenção à criação de experiências para os clientes. Como gerente, aprende a conciliar carreira e família e a entender o serviço como relação; durante o encerramento da companhia, sua preocupação central é preservar a reputação.
Essa reputação vira capital quando ela abre a AeroVip, empresa erguida sobre autonomia, relacionamento e confiança. Os capítulos dedicados ao empreendimento têm interesse direto para quem estuda ou pratica gestão: o Empretec aparece como confirmação da capacidade empreendedora; a falência de fornecedores testa o compromisso com os clientes; o credenciamento IATA e a expansão de destinos marcam o crescimento de "uma empresa que nasceu grande". Há ainda a disputa judicial pelo dinheiro investido no Aéros, narrada como defesa persistente de um patrimônio construído em décadas de trabalho.
Um dos núcleos conceituais do livro está no capítulo sobre as três vezes em que a autora teve de recomeçar: a entrada na aviação, a abertura da AeroVip e a reorganização depois da pandemia. Lidas em conjunto, as três experiências compõem uma pequena teoria do recomeço, entendido como desapego e não como derrota.
"Dureza não é falta de amor"
Família, liderança e o amor que sabe sair do centro
O livro não separa a executiva da mulher, da esposa e da mãe. O capítulo sobre o casamento com Ronaldo, intitulado "Casamento é admiração", descreve apoio mútuo, respeito às diferenças e uma união que não limita a expansão de nenhum dos dois. Já os capítulos sobre os filhos tratam de dois movimentos complementares: a defesa da cobrança, dos limites e da responsabilidade como formas de amor e de preparação para a sucessão familiar, e o aprendizado, mais doloroso, de que amar também exige retirar-se do centro, respeitar decisões alheias e permitir que cada um assuma as consequências das próprias escolhas.
Entre esses capítulos está um dos momentos mais tensos da obra: o relato de uma emergência médica durante uma viagem à Disney, em "A menina que quase não voltou". O episódio serve à autora para reafirmar o caráter humano e presencial de seu trabalho, algo que nenhum pacote turístico substitui. A mesma ideia reaparece quando ela define sua atuação como construção de pontes entre pessoas, lugares e oportunidades, sustentada por escuta e compreensão das necessidades do outro.
Fé, terapia e a palavra como forma de cuidado
Na reta final da primeira parte, o livro se volta para dentro. Lenita articula fé e ação, insistindo que existe algo maior, mas que é preciso fazer a própria parte; as viagens religiosas e o serviço aparecem como expressões dessa confiança, sem que a responsabilidade pessoal seja abandonada. Em "Falar é tratar", a autora aborda memórias traumáticas, o Processo Hoffman, a terapia, a meditação e o autocuidado, defendendo a fala como caminho de elaboração e alívio. O capítulo seguinte, "A palavra tem peso", reflete sobre o poder formador das palavras e sobre o próprio projeto do livro, apresentado como organização escrita de memórias e compromissos.
Os capítulos finais acompanham uma crise familiar, a recuperação da saúde, a redução de medicamentos e o reencontro com uma identidade que vai além das responsabilidades. Há uma leitura curiosa das cinco casas em que a autora viveu, vistas como marcos de fases pessoais e profissionais, até a construção de um espaço alinhado a quem ela é hoje. E há o relato de um acidente, seguido de cirurgia e recuperação, no qual a decisão de "celebrar mesmo quebrada" se torna quase uma síntese da postura que o livro inteiro defende. O capítulo que dá título à obra fecha a primeira parte apresentando a trajetória como resultado de escolhas, de singularidade e de coragem, e devolvendo à leitora a possibilidade de escrever o próprio caminho.
"Coragem não é ausência de medo"
Uma segunda parte que transforma experiência em aprendizado
O que distingue Uma em um milhão de uma autobiografia convencional é a segunda parte, "O que o caminho ensina". Ali, a narrativa dá lugar à sistematização: a autora reúne aprendizados profissionais, financeiros, relacionais, espirituais e pessoais extraídos da própria história. Entre os textos dessa seção, destacam-se:
- A Karina e o BMW, que lê a mobilidade social pelos veículos que marcaram a vida da autora, da bicicleta do irmão ao BMW, sem confundir o começo com o destino;
- Liderar é seguir sozinha, sobre a solidão das decisões, a presença, o serviço, a reputação e o compromisso com o crescimento de outras mulheres;
- Coragem não é ausência de medo, que entende a coragem como ação apesar do medo, mas também como recuo consciente, descanso, pedido de ajuda e recusa do que deixou de servir;
- O que o dinheiro ensina, que trata o dinheiro como consequência de entrega e de confiança.
Essa organização em duas partes, a vivência e a reflexão sobre ela, dá ao livro uma utilidade que vai além do interesse biográfico. A experiência individual vira repertório para pensar trabalho, gestão e escolhas de vida.
Para quem empreende, lidera ou está diante de um recomeço
A obra interessa, em primeiro lugar, a mulheres que empreendem ou ocupam posições de liderança e encontram ali um relato sem verniz sobre solidão decisória, conciliação entre carreira e família e construção de reputação. Profissionais do turismo e da aviação reconhecerão no livro a história de um setor visto por dentro, da rotina de uma companhia aérea às crises de fornecedores e à pandemia. Leitores interessados em mobilidade social, trajetórias femininas e na relação entre fé e ação também encontram material para reflexão, assim como quem atravessa um momento de ruptura e procura exemplos concretos de reorganização.
Quem quiser acompanhar a autora fora das páginas pode encontrá-la no Instagram, em @lenitamedeiros, e conhecer a agência que ela fundou em @aerovipviagens. Mas é no livro que essa trajetória ganha sentido completo: a história de uma menina da fazenda Bananeira que, sem esquecer de onde veio, decidiu caminhar em direção aos próprios sonhos e agora divide com os leitores o que aprendeu pelo caminho.
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