Lançamento

Há manifestantes que vestem as cores da pátria e, sem perceber, carregam as próprias grades. Há um jornaleiro que ri das piadas que o ferem, um motorista de aplicativo que repete o discurso que o humilha, uma mãe que esquece do que gosta de comer à força de servir a todos. É desse Brasil miúdo e escancarado que nasce Crônicas sobre as dissonâncias e absurdos, livro de Antonio Carlos Lopes Petean que acaba de chegar ao catálogo da Editora Dialética. São 35 textos curtos que andam pelas ruas, praças, farmácias, salas de aula e telas de celular para fazer uma pergunta incômoda: por que tanta gente abraça aquilo que a aprisiona?
Um cronista que entra na sala de aula pela porta do autoritarismo
O ponto de partida do livro é uma cena de ensino. O narrador, professor, abre uma aula sobre autoritarismo com uma frase sobre a dificuldade de libertar quem venera as próprias correntes, e daí conduz os alunos até Theodor Adorno e sua obra A personalidade autoritária. A reflexão que se desenha é de uma clareza perturbadora: uma educação baseada no medo, na censura e na castração tende a formar pessoas dependentes de figuras fortes, de guias e de mitos políticos, e propensas a reproduzir o autoritarismo que receberam.
Essa hipótese não fica restrita à sala de aula. Ela se espalha pelo livro como uma lente, e cada crônica funciona como um pequeno laboratório onde o leitor vê a teoria ganhar rosto, voz e endereço. Ao lado de Adorno, Camus e Cioran aparecem como companhias de pensamento, sobretudo na desconfiança diante de quem abandona a razão crítica em troca de mitos, crenças e promessas de terra prometida.
Dos canarinhos às fakes, a dissonância como chave de leitura
O conceito que dá nome à obra é a dissonância cognitiva, e Petean o trata como fenômeno coletivo, que atravessa classes e grupos sociais e se alimenta de desigualdades, crenças e ambientes de informação contaminados. A abertura, A dissonância dos canarinhos, observa manifestantes vestidos com símbolos nacionais, estadunidenses e israelenses e chega a uma imagem que dá o tom de todo o volume:
"eu tive a certeza de que as gaiolas invisíveis possuem grades mais fortes que as do Deops na época em que os verdadeiros passarinhos tinham as penas arrancadas para não voar."
Na sequência, uma série de textos aprofunda o tema. A dissonância democratizada questiona a falta de empatia entre classes e o peso das fakes na percepção da realidade; Dissonâncias renovadas aproxima as antigas loucuras históricas das novas tecnologias de produção de insanidades; Dissonância cotidiana contrapõe avanços sociais e econômicos à força política da mídia, das notícias falsas e dos discursos religiosos. Mais adiante, As flores e os canhões giratórios retoma o assunto para mostrar as fake news como armas capazes de derrotar políticas públicas e a própria civilidade, e A culpa é da Bolsa Família desmonta a velha associação entre programas sociais, preguiça e decadência moral.
O racismo que se esconde nas conversas de todo dia
Se há um núcleo que pulsa com mais força no livro, é o das crônicas sobre racismo, sexismo e preconceito naturalizados. Petean tem olhar de repórter para o detalhe: ele escuta, observa e devolve ao leitor situações que, de tão banais, costumam passar despercebidas.
- O jornaleiro é um homem preto, mas as piadas são brancas expõe o racismo estrutural vivido em silêncio por um trabalhador da banca.
- A praça e os seguranças denuncia a formação preconceituosa de agentes de segurança e a violência dirigida a jovens negros.
- Um homem arrojado registra o racismo e o sexismo que escorrem, com naturalidade, da fala de um motorista de Uber.
- O motorista do Uber, a domesticação e um homem jogado da ponte examina como a submissão racial é internalizada diante da violência policial.
- O menino da farmácia e a velocidade do mundo volta-se para a impaciência social com pessoas neurodivergentes.
Completam esse painel textos sobre a experiência feminina, como As mães: entre o acolhimento e o sufocamento do próprio gosto, que discute a autoanulação no cuidado e na alimentação da família, e Confortável?, sobre o desconforto das mulheres diante de homens em espaços vazios e a transformação eufemística da prostituição. Em A casa grande é surda ou se fez de surda?, o autor pergunta por que as elites toleram historicamente o crime até que ele ameace seus próprios interesses.
Medo, tabu e vassalagem: a engrenagem que domestica os corpos
Uma das teses centrais do livro é que o autoritarismo se sustenta na desumanização, no medo e na domesticação dos corpos. Religiões, instituições, discursos políticos e midiáticos aparecem como produtores de versões distorcidas da realidade, capazes de preservar hierarquias e privilégios. Em Castigos e medos, numa discussão sobre autonomia corporal e sexualidade, o cronista é direto:
"Então o que posso dizer é que todas as religiões possuem tabus, atuam para controlar os corpos, a sexualidade e quanto maior o medo que elas conseguem instituir nos seus seguidores, mais sucesso elas terão em controlar os corpos."
A mesma engrenagem reaparece em registros variados. Pequena história de um pequeno suserano representa as relações políticas contemporâneas como uma estrutura medieval de vassalagem; Pesadelo ou profecia? imagina filósofos acorrentados por líderes políticos, tecnológicos e religiosos autoritários; O fascismo terceiro-mundista e o fascismo no primeiro mundo compara líderes de extrema direita e seus modos de fabricar ameaças. O olhar também se volta para fora: Ontem a suástica, hoje a Estrela de Davi aproxima violências locais e o genocídio palestino pela lógica da desumanização, enquanto Os coqueiros, os resorts, Gaza e o genocídio relaciona a transformação de paisagens turísticas à acumulação de capital e à devastação de Gaza. Já Nós, os espanhóis e as enchentes contrasta a reação espanhola diante das catástrofes com a resignação política brasileira.
É na penúltima crônica, Autoritarismo como dissonância, que o fio se amarra de volta à sala de aula de Adorno, e o livro condensa sua aposta numa frase curta: "O exercício da liberdade exige coragem e não dependência."
Entre o frango caipira e o velho álbum, a memória do que se perde
Nem tudo é denúncia. O livro tem uma veia melancólica e afetuosa, que aparece quando o cronista olha para aquilo que a modernização, vendida como progresso, vai apagando: identidades, memórias, formas de convívio menos subordinadas ao capital. Dissonantes, o vestuário e a ancestralidade moram juntos reflete sobre identidade indígena e colonização; A derrota do frango caipira com quiabo lamenta a troca de antigas sociabilidades pelo consumo sofisticado; As carpideiras, a doula e o pastor compara práticas tradicionais de luto a serviços contemporâneos e à mercantilização da fé.
Há ainda o Petean professor, que em O emparedamento e o adeus à tradição fala do envelhecimento docente e do medo das críticas, e em A greve é certa, mas escrita com linhas tortas retrata uma paralisação marcada por disputas, fracasso e discursos de vitória. E há o Petean mais íntimo, que em O velho álbum de fotografias pensa no fim das ilusões amorosas, em O medo da morte confronta as crenças sobre o além com a memória dos mortos, e em Foi num chuvoso domingo medita sobre envelhecimento, livre-arbítrio e o absurdo da existência numa conversa imaginária com uma cadela. A ironia também tem vez, como em E aqui o Tio Patinhas se deu bem, sobre a malandragem e a concentração de riqueza no imaginário nacional, ou em Riscos e julgamentos, em que os afetos parecem mais arriscados que os investimentos financeiros.
Um livro para quem ainda acredita no ócio e na leitura
O volume se despede com Retornando ao Sr. Tchekhov, uma defesa do ócio e da leitura como condições para pensar a exploração, a fome e a liberdade. É uma escolha que diz muito sobre o tipo de leitor que a obra procura: alguém disposto a parar, olhar de novo para o que parecia natural e desconfiar das respostas fáceis. Antes disso, Nossa importância já havia perguntado, com honestidade rara, qual o sentido da literatura e do trabalho intelectual numa vida feita de ilusões sucessivas.
Crônicas sobre as dissonâncias e absurdos interessa a professores e estudantes que querem levar a discussão sobre autoritarismo, racismo e desinformação para além do conceito, a leitores de crônica que apreciam o texto breve e certeiro, e a qualquer pessoa inquieta com o país que vê nas ruas e nas telas. A leitura avança com a fluidez de uma conversa, mas deixa resíduos: depois dela, fica difícil ouvir uma piada, assistir a uma manifestação ou receber uma mensagem encaminhada sem pensar nas gaiolas invisíveis. Quem quiser acompanhar o autor pode encontrá-lo no Instagram, em @acpeteanyahoo.com.br. O livro já está disponível no catálogo da Dialética e é um convite para exercitar aquilo que ele mesmo defende: a coragem de pensar sem tutela.
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Crônicas sobre as dissonâncias e absurdos já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.
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