Lançamento

Em um tempo atravessado por desigualdades sociais, crise climática, fragilidade institucional e desconfiança generalizada em relação às organizações, três letras deixaram de circular apenas nos relatórios de mercado para se tornarem uma pergunta sobre o modo como vivemos juntos. É esse deslocamento que o novo livro ESG: o novo DNA das organizações e da sociedade: uma abordagem de governança, sustentabilidade e ética aplicada, de Paulo Renato Foletto, coloca no centro do debate. A obra, que chega agora ao catálogo, propõe uma leitura ao mesmo tempo original e provocadora: o ESG não como sigla da vez, mas como um novo código interno das instituições, algo tão determinante quanto o DNA que define um organismo vivo.
Quando uma sigla vira gramática da responsabilidade
A tese que sustenta o volume é direta e desconfortável: organizações não são estruturas neutras. Elas carregam valores, silêncios, práticas e decisões que revelam quem são, como impactam o mundo e que legado deixam para as futuras gerações. Ao longo de quinze capítulos, Foletto recusa a leitura do ESG como moda, marketing ou retórica institucional e o reposiciona em outro patamar: método de gestão, ética aplicada e compromisso civilizatório. O primeiro capítulo já estabelece essa fronteira, distinguindo o ESG como moda, como método e como compromisso, e defendendo a passagem da mera eficiência à responsabilidade verificável.
É nesse ponto que o autor formula uma de suas provocações mais citáveis, uma crítica ao ESG reduzido à comunicação e à boa intenção:
"Um relatório ESG sem evidências é apenas narrativa. Uma política ESG sem governança é intenção. Um discurso ESG sem indicadores é promessa."
A frase, extraída do livro, sintetiza a inquietação que percorre toda a obra. Não basta anunciar propósito: é preciso demonstrá-lo. O autor não descarta a eficiência, mas a submete a uma pergunta ética que reorganiza a prioridade das organizações, ao questionar, ainda no capítulo inicial, eficiência para quê, para quem e com quais impactos.
Uma arquitetura em cinco movimentos
Longe de um ensaio disperso, o livro se organiza como uma construção deliberada, em cinco partes que conduzem o leitor da fundamentação à aplicação. A primeira parte apresenta o ESG como novo DNA institucional, articulando identidade organizacional, cultura, propósito e o que o autor chama de ética do futuro. É aqui que entra a noção mais delicada da obra, a responsabilidade intergeracional: as gerações que ainda não nasceram são tratadas como stakeholders silenciosos, cujos interesses precisam ser representados no presente.
A segunda parte aproxima o ESG dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, lendo a Agenda 2030 como uma linguagem global de prioridades. Foletto faz questão de diferenciar as duas gramáticas, e o faz com uma imagem que organiza boa parte de seu argumento:
"Os ODS oferecem o horizonte: indicam os grandes desafios civilizatórios do desenvolvimento sustentável. O ESG oferece o método: organiza práticas, indicadores, governança, riscos, evidências e prestação de contas."
A passagem, presente no livro, resume a divisão de trabalho que o autor propõe entre finalidade e execução. Dos ODS vem o horizonte; do ESG, a disciplina de converter propósito em materialidade, indicadores, metas, evidências e rastreabilidade, temas que ocupam os capítulos centrais dessa seção.
A terceira parte desenvolve os três pilares clássicos. O ambiental é lido a partir da ideia de Casa Comum, dos riscos climáticos, da biodiversidade e da educação ecológica. O social se ancora na dignidade humana, no trabalho decente, na diversidade, na equidade e na inclusão. E a governança aparece não como um pilar entre outros, mas como a base ética que sustenta os demais, apoiada em transparência, integridade, compliance, gestão de riscos e confiança.
Na quarta parte, o ESG desce ao chão da gestão contemporânea. Torna-se escolha estratégica ligada à criação de valor ampliado, obra coletiva construída na escuta e na consideração de stakeholders internos, externos e futuros, e ganha um capítulo específico sobre a educação superior, relacionando universidade, currículo, pesquisa, extensão e desenvolvimento regional. É também nessa seção que o autor define a maturidade ESG, entendida como uma passagem contínua da intenção à institucionalização, sustentada por liderança, formação, dados confiáveis e planos de ação. Já a quinta parte eleva o tom e propõe o ESG como fundamento de uma gestão ética, humana e sustentável, interpretando-o como uma política da vida, fundada em cuidado, reconhecimento, justiça e resistência à indiferença.
A confiança como novo indicador de valor
Se há um fio que amarra os quinze capítulos, é a insistência em que a legitimidade de uma organização não se mede apenas por crescimento ou resultados financeiros, mas pela coerência verificável entre propósito, discurso, indicadores, decisões, impactos e legado. Mais do que crescer, argumenta o autor, as organizações precisam compreender seus impactos; mais do que produzir resultados, precisam gerar confiança, dignidade, sustentabilidade e futuro.
Essa aposta na responsabilidade intergeracional ganha densidade quando o livro enfrenta o problema de representar quem não tem voz. A resposta de Foletto é institucional, não apenas moral: o futuro pode ser cuidado pelos instrumentos concretos da boa gestão, uma ideia que ele condensa ao afirmar, no capítulo dedicado às gerações vindouras, que o futuro não fala, mas pode ser representado por bons indicadores, boa governança e boa ética. Governar bem, nessa leitura, é uma forma de responsabilidade para com o que ainda não existe.
Um chamado a gestores, docentes e pesquisadores
A quem serve uma obra assim? O próprio recorte do livro responde. Com densidade teórica e linguagem acessível, o autor dialoga com gestores e lideranças institucionais, mas também com professores, pesquisadores e estudantes que buscam repensar o sentido da gestão contemporânea. Profissionais dos setores público e privado encontrarão um método para transformar discurso em prática; a academia encontrará um quadro conceitual que articula sustentabilidade, governança, responsabilidade social, ODS, materialidade, indicadores e stakeholders em uma mesma trama.
O tom, acadêmico e humanista, crítico e aplicado, é o de quem transita entre a teoria e a experiência profissional sem abrir mão do rigor. Não se trata de um manual de boas intenções nem de um catálogo de melhores práticas, mas de uma reflexão sobre o que as instituições revelam de si quando decidem, quando calam e quando agem. Como resume o autor, ao tratar de cultura e legado, o ESG, quando vivido com seriedade, ajuda a organização a escolher que tipo de marca deseja deixar no mundo.
Um convite a reescrever o código
A força de ESG: o novo DNA das organizações e da sociedade está em transformar uma sigla desgastada pelo uso corporativo em uma pergunta ética sobre o futuro. Ao longo de suas cinco partes, Paulo Renato Foletto constrói um argumento que é, ao mesmo tempo, técnico e civilizatório: reescrever o DNA institucional é uma tarefa do presente, sob pena de que o futuro cobre exatamente aquilo que deixamos de cuidar. Para quem estuda, ensina ou lidera organizações, a obra chega ao catálogo como leitura necessária e, sobretudo, oportuna.
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