Lançamento

Na década de 1930, uma família de agricultores com onze filhos (sete homens e quatro mulheres) trabalhava como meeira numa fazenda do Cariri paraibano. Duas décadas depois, os filhos estavam espalhados entre o Moxotó pernambucano, o Sudeste e o Sul do país. O que aconteceu com os laços que os uniam é a pergunta de Sertão sem fronteiras: memórias de uma família sertaneja, de Antonio Jorge de Siqueira, que acaba de chegar ao catálogo da Editora Dialética. O livro reúne ensaio, entrevistas e depoimentos para contar a trajetória da família Jorge Siqueira e, a partir dela, um capítulo da história social do sertão nordestino e das migrações internas brasileiras.
Memória familiar como resistência ao esquecimento
A obra parte de uma premissa clara: a memória de uma família não é só um repositório de lembranças. É uma forma de se proteger do esquecimento e de reconstruir o passado com os olhos do presente. Por isso o livro não se limita a narrar. Ele organiza, compara e interpreta as vozes de quem viveu essa história em tempos e lugares diferentes, e usa o acervo de fotografias da família para ilustrar o texto.
O problema que move o autor é conhecido de quem estuda os deslocamentos populacionais do século XX: como um grupo familiar enraizado no trabalho agrícola se mantém de pé quando a busca por autonomia econômica, emprego e educação leva seus membros a lugares cada vez mais distantes. A resposta aparece aos poucos ao longo das quatro partes do volume, e a principal tese é que a dispersão no território não desfez a família. Ela foi reorganizada em novos lugares a partir dos valores, condutas e sentimentos do pai, José Jorge, e da mãe, Verônica.
A dispersão não dissolveu a família Siqueira: o parentesco, a solidariedade e os valores herdados de José Jorge e Verônica a recompuseram em cada novo endereço.
Da meação na Matarina à terra própria em Santa Luzia
A primeira parte é o ensaio "Migrantes de Nós Mesmos", o eixo analítico do livro. Começa pelas origens de José e Verônica, pelo casamento e pela formação da família no sertão paraibano. Em "Os atalhos da lembrança" e "A caminho da Matarina", o autor volta a Prata, à Matarina e às estradas da infância, como a casa de taipa e as primeiras experiências familiares. Esses lugares aparecem ao mesmo tempo como espaços físicos e como caminhos da memória.
O capítulo "Moradores do alheio" descreve a vida de arrendatários na Fazenda Matarina, da família Nunes: o trabalho em terra alheia e o esforço contínuo para juntar patrimônio próprio. A virada vem em "À procura de Santa Luzia", que conta a compra de terras em Pernambuco, a mudança para o Moxotó nos anos 1940 e a passagem da dependência à propriedade. O ensaio trata essa conquista como um momento decisivo, porque mostra que a migração da família foi sempre ligada a um projeto de autonomia.
A escola, o amor e a autoridade do pai
Duas outras forças atravessam o ensaio. A primeira é a educação. Em "A educação sempre faz a diferença", o livro destaca a escola de Zefinha Araújo e o papel da alfabetização na vida dos filhos. Para o autor, a instrução abriu uma saída possível do destino rural e transformou trajetórias individuais e coletivas. Entre os depoimentos da segunda parte está o de Antonio Jorge Siqueira, que fala da formação escolar, da passagem pelo seminário, dos estudos na Europa, do abandono do sacerdócio e da trajetória intelectual, um exemplo concreto do que a escola tornou possível.
A segunda força é o afeto e os conflitos que vêm com ele. O capítulo "Do que o amor não é capaz?" conta a fuga de Flora com Zeca e as tensões entre a autoridade do pai, o sentimento e o casamento. O episódio se resolve muitas páginas depois, em "Ninguém se perde, de volta à casa paterna", que narra a reconciliação de José Jorge com o casal durante o casamento de Anísio. Esse arco mostra bem o que o livro tem de mais humano: a unidade da família não é tratada como algo idealizado, mas como algo construído no meio de rupturas, mágoas e reaproximações.
Dispersos pelo país, unidos pela casa paterna
Nos anos 1950 começa uma nova migração, dessa vez para o Sudeste. "Uma família em diáspora" acompanha os filhos rumo a São Paulo, as viagens difíceis e a acolhida dada por Flora e Zeca, que se tornam ponto de apoio para quem chega. Em "Nor(destinos) e Su(destinos)", o ensaio analisa a adaptação ao trabalho nas fábricas, a conquista do emprego e da moradia e a permanência da cultura sertaneja na metrópole paulista.
O último capítulo do ensaio, "A Hora e a Vez da Terceira Geração", trata de como a memória é passada adiante, de como os padrões familiares continuam e das novas migrações para Paranaguá, no litoral paranaense, e para Mato Grosso do Sul. O sertão, como diz o título, deixa de ter fronteiras: vai junto com os que partem e reaparece nos hábitos, nos laços e nas lembranças dos que nasceram longe dele.
O sertão segue com quem parte: reaparece nas fábricas de São Paulo, nas casas de Paranaguá e na memória de uma terceira geração nascida longe do Cariri.
Um coro de vozes que vai além da família
Depois do ensaio, o livro dá a palavra a quem viveu essa história. A segunda parte transcreve entrevistas com os membros vivos da segunda geração e com cunhados e cunhadas. Entre eles estão:
- Maria Verônica dos Santos, a Madia, que lembra a infância na Matarina, a vida rural e a migração com os filhos;
- Anísio Jorge de Siqueira, que conta a ida para São Paulo, o trabalho na indústria, as voltas ao Nordeste e a mudança para Mato Grosso do Sul;
- Maria da Conceição Siqueira Oliveira, com lembranças do trabalho doméstico e agrícola e dos deslocamentos da família;
- Elias e Valdeci Jorge de Siqueira, que falam da adaptação ao trabalho urbano e da infância em Santa Luzia;
- cunhadas como Doralice, Edite, Enedina e Rejane, que acrescentam o olhar de quem entrou na família pelo casamento.
A terceira parte amplia o quadro com depoimentos de parentes, vizinhos e amigos próximos de José e Verônica. Eugênio Nunes fala da Fazenda Matarina, de seus donos e das relações de trabalho. Neco Porfírio lembra a amizade com José Jorge, o cultivo do fumo e as feiras. Severino Anastácio da Silva relembra a juventude do patriarca, e Pedro Nunes Filho situa historicamente o Cariri e a trajetória da família. Essas vozes de fora são importantes porque inserem a história dos Siqueira na memória coletiva do sertão.
A quarta parte reúne entrevistas da terceira geração, feitas quando morreram casais da segunda, em geral o filho ou a filha mais velhos, como Flora e Zeca e Manoel e Anísia. Maria Irene dos Santos fala do namoro e do casamento com Jacaré e da vida entre São Paulo e Paranaguá. José Guilherme dos Santos Filho fala da adolescência, do trabalho e das perdas da família. Assim, o livro registra também o momento em que a memória troca de mãos.
Um arquivo de vozes para quem estuda migração e família
A contribuição de Sertão sem fronteiras está em juntar, num só volume, uma interpretação e as fontes que a sustentam. O ensaio propõe leituras sobre trabalho agrícola, propriedade, educação e diáspora, e as entrevistas e depoimentos deixam ao leitor um conjunto amplo de testemunhos orais, que pode ser revisitado com outras perguntas.
O livro interessa especialmente a pesquisadores de história social, sociologia rural e estudos migratórios, a estudiosos da memória e da história oral e a quem investiga as relações de trabalho no semiárido nordestino. Também fala a um público mais amplo: as milhares de famílias brasileiras que saíram do Nordeste rumo ao Sudeste e ao Sul e que vão reconhecer nas páginas dos Siqueira partes da própria história. Ao contar a trajetória de um casal de agricultores e de seus onze filhos, Antonio Jorge de Siqueira mostra como a migração mudou o país e como as famílias encontraram formas de continuar juntas apesar da distância.
❦
Garanta o seu exemplar
Sertão sem fronteiras: memórias de uma família sertaneja já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.
Adquirir o livro