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Capa do livro Ai de mim sem IA. Ai de IA sem mim: crônicas sobre a utilização da inteligência artificial no direito
Ai de mim sem IA. Ai de IA sem mim: crônicas sobre a utilização da inteligência artificial no direito, de Daniel Cavalcante Silva · Editora Dialética

Há quem enxergue na inteligência artificial o fim anunciado de advogados, juízes e professores. Há quem prefira fingir que ela não existe. Entre o pânico e a negação, Daniel Cavalcante Silva encontrou um terceiro caminho, mais incômodo e mais fértil: observar o que a tecnologia revela sobre as pessoas que a usam. É essa a aposta de Ai de mim sem IA. Ai de IA sem mim: crônicas sobre a utilização da inteligência artificial no direito, obra que chega agora ao catálogo da Editora Dialética e que transforma a revolução tecnológica do nosso tempo em uma sequência de histórias ambientadas em escritórios, fóruns, audiências e salas de aula.

O livro não se apresenta como manual de ferramentas nem como tratado jurídico. Seu gênero é a crônica, e sua matéria é o cotidiano de quem trabalha com o Direito no momento em que algoritmos passaram a redigir, prever e até agir. Com humor e ironia, mas sem abrir mão de base jurídica sólida, o autor usa o universo forense como espelho para uma pergunta que ultrapassa a profissão: o que permanece autenticamente humano quando as máquinas aprendem a parecer inteligentes?

O medo da substituição esconde um problema mais antigo

A primeira parte do livro trata do susto inicial. No capítulo de abertura, um advogado descobre que a IA não o substitui diretamente; o que ela faz é evidenciar sua disposição, ou sua recusa, de aprender, perguntar e decidir. A tese atravessa toda a obra: o maior risco nunca foi a tecnologia, mas a resistência em aprender.

Na sequência, o autor encena o conflito entre chatbots e clientes que chegam ao escritório munidos de respostas produzidas por máquinas. O choque mostra que informação não substitui escuta, acolhimento, responsabilidade e discernimento profissional. O terceiro capítulo desmonta outro mito do momento, o da engenharia de prompt como saber autônomo: ela aparece como técnica subordinada à leitura, à formulação de boas perguntas e à capacidade humana de pensar. Fecha o bloco uma cena que muitos docentes reconhecerão: a tentativa acadêmica de vedar o ChatGPT, que acaba cedendo à necessidade de ensinar seu uso transparente, crítico e supervisionado.

A vaidade jurídica diante de um espelho algorítmico

Se a primeira parte fala de adaptação, a segunda fala de autoimagem. Aqui a IA funciona como espelho da vaidade, da performance e dos padrões intelectuais do Direito. O capítulo 5 observa que a máquina melhora a forma dos textos jurídicos, mas expõe uma confusão antiga entre linguagem rebuscada, inteligência, autoria e competência efetiva. O capítulo seguinte faz da repetição do verbo moldar um símbolo da reprodução automática de padrões linguísticos, em que estruturas prontas ocupam o lugar da construção crítica.

A questão da autoria ganha corpo em um caso de plágio contábil, ponto de partida para refletir sobre originalidade, reprodução algorítmica e responsabilidade pelo texto produzido. Outro capítulo mostra que a IA pode disfarçar a falta de preparo, mas também amplia e ilumina o vazio técnico de quem a usa como esconderijo. E há espaço para um temor bem contemporâneo: o de ver textos humanos confundidos com produções artificiais, o que leva o autor a discutir autenticidade, influência e singularidade criativa.

Do fórum à sala de aula, a assinatura continua sendo humana

A terceira parte reúne personagens e situações do foro para mostrar como a tecnologia afeta clientes, juízes, advogados e professores. No campo educacional, o debate sobre provas com consulta conduz a uma conclusão relevante para quem forma juristas: é preciso avaliar pensamento, processo e autonomia intelectual, não apenas respostas.

Um dos episódios mais contundentes envolve uma sentença com jurisprudência inventada. A crônica deixa claro que delegar a redação não transfere a responsabilidade judicial nem dispensa a conferência humana. Em outro capítulo, o processo de Luciana evidencia como a automação e a busca por produtividade podem esvaziar a presença, a escuta e o acolhimento no Judiciário. O autor também não poupa o extremo oposto: o advogado que rejeita a IA em público enquanto a utiliza superficialmente ilustra que responsabilidade não se confunde com resistência ao novo. O bloco termina com um achado criativo, uma rede social imaginária de inteligências artificiais que observa a advocacia e a magistratura e expõe seus excessos, disputas, vaidades e vieses.

Ferramentas que agem, preveem e redigem, mas não respondem

A quarta parte entra no terreno das ferramentas capazes de agir por conta própria, e aqui o problema jurídico fica nítido. No capítulo 15, um agente autônomo aceita um acordo sem procuração: a lição é que delegar tarefas não significa abdicar da supervisão e da responsabilidade. A jurimetria, por sua vez, é comparada a uma cartomante estatística, útil como bússola, mas incapaz de substituir o julgamento do caso concreto e, sobretudo, do improvável.

O capítulo 17 traz talvez a imagem mais didática para estudantes e jovens profissionais: um contrato gerado por IA que omite a hipótese decisiva da morte de um sócio. O texto estava correto na forma, mas faltava aquilo que nenhum modelo entrega sozinho, a capacidade do advogado de imaginar os riscos que o cliente não verbalizou. A parte se completa com reflexões sobre estilo jurídico, latim e padrões reproduzíveis, mostrando como a IA desestabiliza formas tradicionais de autoridade, e com a crônica O Último Happy Hour da Advocacia.

Alucinação, culpa e o último recurso que só as pessoas têm

A quinta parte é dedicada à alucinação, à ética e à culpa, com títulos que já anunciam o tom da obra, como A Alucinação Nossa de Cada Dia, A Ética, o Algoritmo e a Cebola, Tudo que Você Digitar Poderá Ser Usado e O Réu Chamado Ninguém. A sexta e última parte retoma a sociedade, a prova e a relação entre tecnologia e humanidade. Nela, um airbag que não funciona serve para discutir a responsabilidade por sistemas inteligentes e a necessidade de resolver falhas concretas antes de confiar decisões vitais a algoritmos.

Há também uma crônica de reinvenção profissional: um advogado perde clientes para concorrentes mais automatizados, abandona o contencioso de massa e reencontra sentido ao priorizar estratégia, qualidade e vida. Outra acompanha a revisão curricular de um curso jurídico e revela a distância entre regulamentar a IA e experimentá-la com supervisão, transparência e coragem institucional. O encerramento, otimista, identifica o último recurso disponível: a responsabilidade humana de decidir, escutar, avaliar e conferir sentido ao trabalho realizado com auxílio da máquina.

Uma contribuição para quem forma, julga, advoga e decide

A principal contribuição do livro está em deslocar o debate. Em vez de perguntar se a IA vai substituir o jurista, a obra pergunta o que o jurista continua devendo fazer, e por quê. A resposta, construída crônica após crônica, sustenta que o valor profissional não está apenas em redigir ou repetir informações, mas em interpretar, formular perguntas, exercer discernimento, acolher pessoas e assumir consequências. E que a utilização da tecnologia exige supervisão humana significativa.

Por isso a leitura serve a públicos diversos:

  • advogados e magistrados, que encontrarão situações reconhecíveis sobre conferência, delegação e responsabilidade;
  • professores e coordenadores de cursos, interessados em avaliação, currículo e uso supervisionado da IA em sala;
  • estudantes de Direito, que precisam aprender desde cedo a diferença entre texto bem formatado e raciocínio jurídico;
  • gestores e leitores em geral, curiosos sobre a transformação mais profunda do nosso tempo.

Leve na forma e sério no conteúdo, Ai de mim sem IA. Ai de IA sem mim lembra que algoritmos calculam probabilidades, mas são as pessoas que escolhem, erram, respondem e assumem responsabilidades. Como resume a própria obra, a verdadeira pergunta nunca foi se a inteligência artificial pensará como nós, mas se continuaremos pensando por nós mesmos.

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Ai de mim sem IA. Ai de IA sem mim: crônicas sobre a utilização da inteligência artificial no direito já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

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