Lançamento

Capa do livro Hermenêutica do eu: considerações acerca da individualidade
Hermenêutica do eu: considerações acerca da individualidade, de Jacira de Assis Souza · Editora Dialética

Quem somos quando dizemos "eu"? Um núcleo fixo, que atravessa o tempo sem se alterar, ou um feixe de impressões que se desfaz a cada instante? É no espaço entre essas duas respostas, ambas sedutoras e ambas insuficientes, que se move Hermenêutica do eu: considerações acerca da individualidade, de Jacira de Assis Souza, que acaba de chegar ao catálogo da Editora Dialética. A obra parte do pensamento de Ricoeur para propor uma leitura da pessoa como unidade narrativa: alguém que se reconhece a si mesmo ao contar a própria história.

Um caminho entre a exaltação e a demolição do sujeito

O ponto de partida do livro é uma posição de equilíbrio. A hermenêutica do eu, como apresenta a sinopse, está equidistante tanto da apologia do cogito quanto de sua destituição. De um lado, a tradição que fez do sujeito pensante um fundamento inabalável; de outro, as críticas que procuraram dissolvê-lo. Em vez de escolher um dos polos, a autora acompanha Ricoeur na aposta de que uma filosofia da pessoa pode libertar as questões do sujeito de falsos problemas.

Esses falsos problemas têm origem no substancialismo, e o livro os nomeia com clareza: a ideia de um núcleo atemporal e imutável, de um lado, e a dispersão do eu em impressões, de outro, tal como aparece em leituras associadas a Nietzsche e Hume. O debate, portanto, não é apenas histórico. Ele toca a maneira como cada um de nós pensa a continuidade da própria vida.

A trama que costura ações e personagens

A noção central da obra é a de identidade narrativa. Segundo a sinopse, a pessoa designa a si mesma no tempo como unidade narrativa de uma vida, e essa unidade reflete uma dialética entre coesão e dispersão, mediada pela trama. É a trama, construída tanto pelas ações quanto pelos próprios personagens, que dá forma ao que, de outro modo, seria apenas sucessão de acontecimentos.

Dois conceitos sustentam essa construção:

  • Mesmidade: aquilo que permanece, os conceitos sedimentados, a herança que carregamos;
  • Ipseidade: a abertura ao encontro com o espaço que pede mudança, a correção dos erros praticados e a assimilação de novos conceitos.

A dialética entre esses dois polos, afirma a sinopse, é interna à constituição ontológica da pessoa. Não se trata de duas camadas sobrepostas, mas de uma tensão que nos constitui.

Ser alguém, nesta leitura, é sustentar uma história em que aquilo que permanece e aquilo que se transforma precisam caber na mesma trama.

Somos depositários de tudo o que já foi pensado

Um dos aspectos mais instigantes do livro é a dimensão histórica que atribui à individualidade. Somos depositários de tudo o que existiu, de tudo o que já foi pensado e criado, e esse acervo lateja em nós. O passado, nessa perspectiva, não é um arquivo morto: ele se faz presente. E o presente, por sua vez, se desenrola pelo aprimoramento do que já existe, num atrito necessário entre o que está sedimentado e o que reclama transformação.

Daí a conclusão que orienta a obra: a individualidade, ou identidade narrativa, é um fenômeno complexo justamente porque envolve dois tipos de identidade que não se deixam reduzir a uma única ideia. Recusar essa redução é, talvez, a principal contribuição do livro ao debate sobre o sujeito.

Para quem a leitura se abre

Pela natureza do problema que enfrenta, a obra interessa de perto a estudantes e pesquisadores de filosofia, especialmente aqueles dedicados à hermenêutica, à fenomenologia e à filosofia da pessoa. Também dialoga com leitores de outras áreas das humanidades que lidam com as noções de identidade, memória e narrativa, como a teoria literária, a psicologia e a educação.

Para quem busca uma porta de entrada para as questões ricoeurianas sobre o si, o livro oferece um percurso organizado em torno de conceitos-chave. Para quem já transita por esse território, propõe uma reflexão sobre como herança e mudança convivem na constituição de cada indivíduo.

Uma obra para pensar a vida como relato em curso

Ao trazer a identidade para o terreno da narrativa, Jacira de Assis Souza desloca a pergunta "o que sou?" para outra, mais fértil: "como me conto?". A mudança não é só de vocabulário. Ela permite pensar o sujeito sem congelá-lo numa essência e sem dissolvê-lo no fluxo das impressões, reconhecendo que cada vida se escreve no diálogo entre o que recebemos e o que somos capazes de reinventar.

Hermenêutica do eu: considerações acerca da individualidade chega, assim, como contribuição oportuna para quem deseja compreender a individualidade em sua complexidade, sem atalhos nem simplificações.

❦

Garanta o seu exemplar

Hermenêutica do eu: considerações acerca da individualidade já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

Adquirir o livro