Lançamento

O Sistema Único de Saúde depende de médicos que acompanhem pessoas e famílias ao longo do tempo, nos bairros e nas unidades básicas. Mesmo assim, a especialidade criada para esse trabalho continua com poucos profissionais e pouco prestígio entre os próprios estudantes de medicina. É desse problema que parte Medicina de família e comunidade: formação, vocação, compromisso social e o futuro do SUS, de Daniel Carvalho Virginio, que acaba de chegar ao catálogo da Editora Dialética. O autor é médico de família e escreve a partir da própria experiência. O livro junta pesquisa acadêmica, memória profissional e uma proposta concreta de intervenção na formação médica, e pergunta o que leva um futuro médico a escolher, ou a evitar, a Medicina de Família e Comunidade (MFC).
Uma especialidade essencial que os estudantes ainda não escolhem
A introdução trata a escassez e a desvalorização da MFC como um problema que liga quatro coisas: a formação médica, a Atenção Primária à Saúde, o SUS e a escolha profissional. Para o autor, entender por que tão poucos jovens médicos seguem por esse caminho é uma forma de pensar o próprio futuro do sistema público. Por isso o livro se dirige a professores e gestores de cursos de medicina, a preceptores e residentes, a profissionais da atenção básica, a formuladores de políticas de saúde e também aos estudantes que ainda vão escolher uma especialidade.
"Discutir sobre a formação médica atual e as possibilidades futuras é de extrema relevância para a sociedade."
A sinopse adianta que essa conversa é feita "com leveza". Daniel Carvalho Virginio apresenta os resultados da pesquisa ao lado das razões que o levaram à especialidade e do dia a dia no SUS. Relatos, histórias, conquistas e fragilidades vividas nos territórios, nos consultórios e na formação dos estudantes mostram na prática a longitudinalidade e a coordenação do cuidado, dois princípios centrais da área. O autor também mantém presença nas redes como @drvirginio.
Do sistema ligado ao trabalho ao SUS universal
A fundamentação teórica começa pela história. O livro mostra como a saúde pública brasileira saiu de um modelo vinculado ao trabalho formal e chegou a um sistema universal. Em seguida, explica as diretrizes que sustentam o SUS: universalidade, integralidade, equidade, descentralização, regionalização e participação social. O autor defende o sistema como instrumento de cidadania, inclusão social e redução de desigualdades.
O texto não idealiza o SUS. Um trecho inteiro trata de subfinanciamento, problemas de gestão, precarização, mudanças no perfil epidemiológico e judicialização. Outro, mais duro, liga o sucateamento do sistema público ao avanço da lógica de mercado na saúde. Essa leitura crítica sustenta o argumento central: valorizar a Medicina de Família e Comunidade faz parte da defesa de um sistema público forte.
Princípios, ensino e residência
Na parte dedicada à especialidade, o autor conta sua formação histórica e sua relação com a Atenção Primária. Ele define os princípios da área: cuidado continuado, integral, abrangente, longitudinal, comunitário e coordenado. Também defende que o ensino da MFC integre ensino, pesquisa, serviço e comunidade, e retoma a consolidação da residência no país a partir dos programas pioneiros da UFPE, da UFRGS e da UERJ, com os desafios que enfrentaram. O capítulo termina com um tema decisivo para quem pensa políticas públicas: a dificuldade de manter profissionais na Atenção Básica. Rotatividade, condições de trabalho, remuneração, regulação e escolhas profissionais aparecem como fatores interligados.
A sinopse lembra ainda que o livro dialoga com as estratégias de valorização da especialidade. Entre elas estão as mudanças nas diretrizes curriculares da graduação, que levam o estudante à atenção primária desde o início do curso, as políticas de provimento e qualificação e a residência médica como porta de entrada na especialização.
Ouvir os estudantes antes de propor mudanças
O centro empírico da obra é uma pesquisa exploratória qualitativa feita na Afya Universidade Unigranrio, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O estudo nasceu no mestrado profissional, no qual o autor atuou como professor-pesquisador, investigando a própria prática docente. Participaram estudantes voluntários do décimo, do décimo primeiro e do décimo segundo períodos, que responderam presencialmente a um questionário semiestruturado. As respostas passaram por análise categorial, e o livro registra a aprovação pelo Comitê de Ética, o consentimento dos participantes, o anonimato e a proteção dos dados.
"Conhecer quem são os estudantes de medicina, suas histórias, percepções e contextos de vida constitui um passo essencial para compreender como se constroem as trajetórias profissionais, as escolhas de especialidade e os vínculos com determinadas áreas da saúde."
Os resultados começam pelo perfil dos participantes: faixa etária, gênero, raça, família, procedência, renda e escolaridade dos pais. Em seguida, o autor examina como esses futuros médicos veem a MFC. Há avaliações positivas, mas também dúvidas, barreiras e dificuldade de relacionar a especialidade com a Estratégia Saúde da Família e com o próprio SUS. Quando perguntados sobre onde pretendem trabalhar, os estudantes preferem as capitais e os grandes centros, e a adesão à Medicina de Família e Comunidade é relativamente baixa. Sobre o lugar da especialidade na graduação, aparecem elogios e críticas, sobretudo quanto à integração entre teoria e prática.
O que os futuros médicos pedem à formação
Um capítulo inteiro organiza as sugestões dos próprios estudantes. Eles pedem mais prática, mais conteúdo sobre políticas de saúde, mais preparo em comunicação e trabalho em equipe e melhor infraestrutura. Também reconhecem pontos fortes: a prática comunitária, o desenvolvimento da comunicação e a experiência em campo. Daí sai a proposta do autor para o futuro, uma inserção da MFC na graduação que seja precoce, contínua, supervisionada e integrada.
- Inserção precoce: contato com a atenção primária desde os primeiros períodos.
- Continuidade: presença da especialidade ao longo de todo o curso, e não em momentos isolados.
- Supervisão: acompanhamento qualificado da prática nos territórios.
- Integração: ensino, serviço e comunidade trabalhando juntos.
Um documentário para mudar a forma de ver a MFC
Uma das contribuições mais originais do livro é o produto educacional criado no mestrado: um documentário pensado como intervenção audiovisual para ampliar o conhecimento e o interesse pela Medicina de Família e Comunidade. O autor fundamenta a escolha da narrativa em Walter Benjamin e relaciona narrativa, escuta e experiência a uma crítica da fragmentação do cuidado.
O documentário foi exibido na Jornada Acadêmica de Medicina para estudantes do primeiro ao décimo segundo período, em três fases realizadas no mesmo dia e local: questionário antes da exibição, exibição completa do filme e novo questionário depois. O diagnóstico inicial mostrou que os estudantes reconheciam a importância teórica da MFC, mas atribuíam a ela pouco valor social e profissional. Depois da exibição, as percepções mudaram de forma positiva, e o livro apresenta esse efeito imediato ao lado das limitações do método.
Três maneiras de ver a especialidade
A nova percepção foi organizada em três eixos. No primeiro, vínculo e cuidado integral, a MFC aparece como prática humanizada, longitudinal e centrada na pessoa. No segundo, visão estratégica para o SUS, ela surge como ordenadora do cuidado, resolutiva e necessária à sustentabilidade do sistema. No terceiro, compromisso com a saúde coletiva, a especialidade se associa à promoção da saúde, à prevenção e à equidade.
Formar médicos de família é pensar o futuro do SUS
O livro de Daniel Carvalho Virginio une história da saúde pública, análise de políticas, pesquisa com estudantes e uma intervenção pedagógica testada em sala. Ele oferece diagnóstico e caminhos para um problema que afeta todo o país. Para docentes e coordenadores de curso, traz dados e propostas sobre o currículo. Para gestores, discute com franqueza por que é tão difícil manter profissionais na atenção básica. Para estudantes e jovens médicos, apresenta a especialidade pelo olhar de quem a vive todos os dias, nos consultórios e nos territórios. O livro já está disponível no catálogo da Editora Dialética.
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