Lançamento

Quem caminhava ao lado das carruagens nas antigas caravanas de ocupação de terras ouvia sempre a mesma pergunta: “estamos chegando?”. A resposta, paciente, também se repetia: ainda não, mas logo, no andar da carruagem. É dessa expressão popular, de origem incerta na literatura formal, que nasce No andar da carruagem, livro de Admilson José Moraes que chega agora ao catálogo da Editora Dialética. A obra percorre a longa história dos meios de transporte, da invenção da roda às locomotivas, e a costura com a trajetória de um homem, de uma família e de uma cidade: Jundiaí, onde os trilhos da Companhia Paulista de Estrada de Ferro ajudaram a desenhar o futuro.
O resultado é um livro de memória em movimento. Admilson não escreve como quem olha o passado de longe, mas como quem seguiu a viagem a bordo, acompanhando, nas palavras da sinopse, aquilo que a vida entrega à frente e construindo o próprio caminho a partir do que lhe parece justo no pensar e no agir.
Uma invenção antiga como ponto de partida para contar uma vida
A primeira parte do livro, que empresta o título à obra, começa pelo começo de tudo: a roda. O autor acompanha sua evolução, das carruagens aos motores, até chegar à ferrovia, e trata essa trajetória técnica como uma chave para entender a própria civilização. A roda aparece ali como invenção decisiva, capaz de transformar o transporte, o trabalho e o desenvolvimento humano.
Mas o interesse de Admilson não é apenas enciclopédico. Ao narrar essas transformações, ele as aproxima de sua experiência pessoal e da memória ferroviária de Jundiaí, criando desde as primeiras páginas o movimento que define o livro inteiro: a grande história e a pequena história avançando lado a lado, como passageiros do mesmo comboio. No fechamento dessa seção, o autor resume o sentido simbólico que atribui ao objeto que inaugura sua narrativa:
“Mais do que um simples componente mecânico, a roda representa a criatividade, a evolução e a capacidade humana de transformar ideias em soluções.”
Do vapor à Companhia Paulista, a cidade aprende a andar sobre trilhos
Na sequência, o capítulo dedicado ao primeiro motor mecânico conduz o leitor pela passagem das carruagens de tração animal às máquinas a vapor, e delas às locomotivas e à formação das ferrovias brasileiras. É aqui que a Companhia Paulista ganha protagonismo, e também aqui que o autor começa a registrar suas experiências no museu ferroviário, espaço que atravessará o livro até as últimas páginas.
Uma das teses centrais da obra se firma nesse trecho: a ferrovia foi fundamental para o crescimento econômico, populacional, cultural e industrial de Jundiaí, além de ter cumprido papel decisivo na integração do Estado de São Paulo. Para quem conhece a cidade, a leitura ilumina o sentido de prédios, oficinas e caminhos que hoje fazem parte da paisagem. Para quem não conhece, é um convite a enxergar como uma companhia ferroviária pode moldar a identidade de um lugar.
No sobrenome Moraes, uma herança que corre pelos trilhos
O coração afetivo do livro está na seção intitulada Livro do meu pai ferroviário 5. Admilson investiga a origem familiar do sobrenome Moraes e reúne lembranças de infância, religiosidade, trabalho, formação profissional, música e, claro, dos vínculos com a ferrovia. São quatro gerações ligadas ao trabalho ferroviário, e o autor faz questão de registrá-las como forma de reconhecer a contribuição dos ferroviários e de transmitir suas experiências às novas gerações.
O tom aqui é íntimo, coloquial, de conversa. Há relatos, há canções, há a vida doméstica e a vida profissional entrelaçadas. E há também uma postura diante do tempo que merece destaque, porque recusa tanto a nostalgia cega quanto o desprezo pelo que passou:
“Não faço parte das pessoas que criticam o passado, mas vejo que muito do que fazemos é uma repetição do que já se foi.”
A frase sintetiza o espírito da obra: lembrar não é se prender, mas reconhecer que o presente é feito de camadas que vieram antes. Cada escolha, cada aprendizado e cada recordação compõem o mesmo percurso contínuo que o autor simboliza no andar da carruagem.
Defender um nome é também defender uma memória
Se a primeira metade do livro é narrativa, a segunda assume um caráter mais documental e, em certos momentos, militante. Em um artigo dedicado à Companhia Paulista de Estrada de Ferro S/A, Admilson propõe que os edifícios ferroviários de Jundiaí mantenham a denominação de Complexo da Companhia Paulista, em reconhecimento à sua história. O argumento retorna e se aprofunda na parte sobre patrimônio cultural paulista, que reúne informações sobre preservação e descreve as estruturas, as atividades e as contribuições sociais, culturais e econômicas da companhia na cidade.
A tese é clara: preservar o patrimônio ferroviário significa manter não apenas os prédios, mas também os nomes, os objetos e as memórias ligados a eles. No livro, o autor afirma que “os patrimônios históricos devem ser mantidos seu nome pela origem primeira e sua definição junto a época e suas memórias”, defendendo que a identidade original de um espaço é parte inseparável do seu valor histórico.
Essa defesa ganha peso porque não vem de um observador distante. Admilson relata a experiência da administração voluntária do museu e da proteção do complexo ferroviário após a privatização, período em que, como ele escreve, a missão era “proteger o prédio e as peças do museu”, com a convicção de prestar um serviço à cultura e à cidade. É o testemunho de quem esteve na linha de frente da preservação.
Um museu, uma cronologia e a roda que continua girando
A parte final reúne a cronologia e a descrição do museu ferroviário, registrando sua criação e reabertura e reafirmando a identidade do complexo. É material precioso para pesquisadores da história local e para quem deseja compreender como uma instituição de memória se forma, resiste e se renova.
O encerramento, porém, volta ao tom reflexivo do início. Admilson retorna à roda, à passagem do tempo e ao movimento da vida, fechando o círculo que abriu nas primeiras páginas. A imagem é coerente com tudo o que veio antes: a roda que transformou o transporte é a mesma que, metaforicamente, segue girando na trajetória de cada pessoa.
Para quem a viagem vale a pena
No andar da carruagem é um livro de muitas portas de entrada. Interessa a quem busca:
- Memórias pessoais e familiares, contadas em primeira pessoa, com linguagem próxima e afetuosa;
- História ferroviária, das máquinas a vapor à formação das ferrovias brasileiras;
- A trajetória da Companhia Paulista e seu papel no desenvolvimento de Jundiaí e de São Paulo;
- Debates sobre patrimônio cultural e a preservação de nomes, edifícios e objetos históricos;
- Narrativas de trabalho, que registram o cotidiano e o legado das famílias ferroviárias.
Misturando relato, artigo, música e documento, a obra de Admilson José Moraes tem algo de álbum de família e algo de arquivo público. É um livro que pede leitura sem pressa, no ritmo das antigas caravanas, para que o leitor descubra, página a página, que a pergunta “estamos chegando?” talvez importe menos do que a própria viagem. E essa viagem, agora, está à disposição de quem quiser embarcar.
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