Lançamento

Muitos métodos de atuação se transmitem na sala de ensaio: passam de diretor para elenco, de ator para ator, e raramente chegam ao papel com a precisão que a prática exige. Com O quadro de antagônicos: método para treinamento e composição de personagens da Pequena Companhia de Teatro, que acaba de entrar no catálogo da Editora Dialética, o ator e pesquisador José Cláudio Marconcine enfrenta esse problema. O livro organiza, analisa e revisita no próprio corpo o Quadro de Antagônicos (QdA), método criado por Marcelo Flecha, diretor artístico da Pequena Companhia de Teatro (PCT), e usado pelo grupo no treinamento de seus intérpretes e na criação de suas personagens.
A obra é um desdobramento da dissertação que o autor defendeu em 6 de dezembro de 2022 no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Maranhão (PPGAC/UFMA). Na passagem para o livro, ele fez as adaptações que julgou oportunas, sem se prender à ortodoxia das normas acadêmicas. O leitor também ganha acesso a um sítio na web com o material audiovisual da pesquisa, que inclui uma demonstração técnica do método.
Um saber de grupo que pede registro e sistematização
O ponto de partida da pesquisa é a experiência do próprio autor. Marconcine esteve em cena em três espetáculos da companhia nos quais o QdA foi utilizado: Entrelaços (2009), Pai&filho (2010) e Velhos caem do céu como canivetes (2013). Foi sobre essas montagens que ele se debruçou para analisar e revisar o método em diálogo com o corpo, considerando sua aplicabilidade físico-energética e propondo, a partir dessa revisitação, uma sistematização do QdA.
O livro chega com dois prefácios que dão a medida da relação do autor com o grupo. No primeiro, Gilberto Freire, apresentado como o primeiro diretor de Marconcine, reconstitui a trajetória do autor, seu vínculo com a PCT e o caráter corporal e experiencial do método. No segundo, Marcelo Flecha, o diretor mais recente, define a publicação como um manual do QdA e destaca a análise das jornadas de trabalho e a experimentação solo feita pelo pesquisador.
A história da companhia como chão do método
Antes de entrar na técnica, o primeiro capítulo reconstrói a trajetória da Pequena Companhia de Teatro: sua composição, seu repertório, as circulações, premiações e participações em festivais e projetos. Há também um registro das dificuldades enfrentadas durante a pandemia, quando o grupo manteve sua atividade por meio de leituras, demonstrações e um experimento audiovisual.
Esse percurso histórico tem uma função precisa. É nele que o leitor acompanha a gênese da companhia, suas relações anteriores e a criação de Entrelaços, a montagem em que o QdA se estruturou. O capítulo se encerra descrevendo as experiências que antecederam o método e sua sistematização progressiva ao longo dos anos, o que mostra que ele foi sendo construído na prática antes de ganhar forma escrita.
Dez pares de palavras que orientam a energia do corpo
O segundo capítulo é o centro técnico da obra. Nele, o QdA aparece em sua forma consolidada: um método organizado em dez pares de palavras antagônicas, com contenção e expansão funcionando como moderadores da energia corporal. O autor classifica os antagônicos, explica os moderadores, apresenta os quadrantes e descreve as transições que levam o ator do corpo cotidiano ao corpo extracotidiano, aquele que se sustenta em cena.
"Criado por Marcelo Flecha, o QdA (Figura 4) é a sistematização de um método para treinamento e composição de personagens."
A composição da personagem, mostra o livro, acontece em três jornadas sucessivas. Na pré-expressiva, o corpo amplia seu repertório. Na expressiva, o intérprete experimenta perfis possíveis. Na dramatúrgica, consolida um antagônico-guia, que passa a orientar a construção da figura em cena. Marconcine detalha os procedimentos de ensaio de cada etapa e explica como o perfil da personagem vai se formando.
Uma das teses mais úteis para quem está em sala de ensaio diz respeito à repetição. Segundo o autor, a reiteração dos procedimentos produz memória corporal e permite recuperar com rigor e precisão o perfil da personagem a cada ensaio e apresentação. O livro resume a ideia assim: "O corpo memoriza os procedimentos e a recuperação destes retoma o perfil da personagem criada."
O capítulo também situa o método no debate teórico. Marconcine relaciona o QdA às teorias contemporâneas do corpo, à Antropologia Teatral, à noção de dramaturgia do ator e à unidade entre corpo e voz. Daí sai outra tese central: a dramaturgia do ator nasce da fisicidade, da movimentação, da voz, da energia e das relações do corpo com os demais materiais do processo criador, e não apenas do texto verbal.
Três meses de treino solo, anotados como um diário
É no terceiro capítulo que o livro assume seu registro mais pessoal. Marconcine retomou o QdA na prática durante três meses de treinamento, registrados em audiovisual, e transformou essa experiência em uma autoetnografia do próprio corpo ao longo do tempo. O texto alterna análise e anotações de diário de treino, num tom testemunhal e por vezes confessional.
O percurso segue as mesmas três jornadas descritas na parte teórica. Na pré-expressiva, o autor registra suas percepções ao experimentar os antagônicos sem a finalidade imediata de compor uma personagem. Na expressiva, acompanha os descartes, a experimentação de movimentos e a busca de um antagônico-guia e de seus contaminadores. Na dramatúrgica, descreve a criação de uma cena e de uma personagem a partir do corpo, de um texto gravado, de objetos e dos antagônicos selecionados.
"Todos esses procedimentos se constituem visando subsidiar o processo criador do/a ator/atriz na busca de um corpo orgânico, crível e potente para a cena."
O fechamento do capítulo discute a singularidade das percepções corporais e o que o autor chama de transcriação do método. Também defende que a prática exige diálogo, autonomia e alteridade, para que cada intérprete possa se apropriar do QdA a partir de sua própria experiência.
Um método que se mantém aberto a cada novo corpo
A conclusão reforça uma ideia que atravessa toda a obra: o QdA não é um molde fixo. Sua aplicação depende da história, das percepções e dos atravessamentos de cada corpo, e por isso pode ser transcriada por quem o pratica. O livro registra essa posição com franqueza: "Essa compreensão e prática do QdA não é absoluta, não é decalque. O que se mostra é algo aproximado de." Nas páginas finais, o autor propõe desdobramentos para o método e reafirma seu caráter processual, aberto e coletivo.
Os apêndices ampliam o uso prático da publicação. O primeiro reúne os ritos de chegada, alongamentos e aquecimentos empregados nas montagens analisadas. O segundo traz o roteiro da demonstração técnica do QdA feita pelo autor. O terceiro apresenta transcrições de entrevistas autobiográficas com integrantes e colaboradores da PCT, ampliando o coro de vozes que sustenta a pesquisa.
Para a sala de ensaio, para a sala de aula e para a pesquisa
O livro conversa com públicos diversos. Interessa a atores e atrizes que buscam ferramentas concretas de treinamento e composição, a encenadores e diretores que trabalham com processos centrados no corpo, e a estudantes e pesquisadores de artes cênicas que se dedicam à dramaturgia do ator, à Antropologia Teatral e às poéticas de grupo. Integrantes de coletivos teatrais também encontram ali um exemplo de como transformar a prática acumulada de um grupo em conhecimento compartilhável.
- Para quem atua: um percurso em três jornadas, com procedimentos descritos e um diário de treino que mostra o método em funcionamento.
- Para quem dirige: uma forma de conduzir o elenco do repertório corporal até a personagem, sustentada pela memória corporal.
- Para quem pesquisa: a sistematização de um método de grupo, articulada a referenciais teóricos e à autoetnografia.
Ao registrar em livro um saber que nasceu e amadureceu na prática de uma companhia, Marconcine contribui para a memória do teatro de grupo e oferece um instrumento de trabalho para quem cria em cena. Quem quiser acompanhar o grupo de perto pode seguir a Pequena Companhia de Teatro no Instagram, em @pequenacompanhiadeteatro. A obra já está disponível no catálogo da Editora Dialética.
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O quadro de antagônicos: método para treinamento e composição de personagens da Pequena Companhia de Teatro já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.
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