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Capa do livro A verossimilhança fantástica no discurso narrativo de Machado de Assis
A verossimilhança fantástica no discurso narrativo de Machado de Assis, de Antônio Joaquim Pereira Neto · Editora Dialética

Há mais de um século, a crítica brasileira lê Machado de Assis como o grande intérprete da sociedade do Segundo Reinado: um realista refinado, um moralista atento, um observador das relações de favor e de classe. Chega agora ao catálogo da Editora Dialética um livro que propõe outro caminho. Em A verossimilhança fantástica no discurso narrativo de Machado de Assis, Antônio Joaquim Pereira Neto sustenta que o princípio que organiza a escrita machadiana não está na reprodução da realidade empírica, e sim na retórica: na forma como o escritor combina o sublime com o grotesco, o sério com o cômico, a galhofa com a melancolia.

A proposta é ambiciosa e tem endereço certo. O estudo toma a verossimilhança, conceito antigo da tradição retórica e poética, e mostra como ela opera em Machado no plano do estilo e da relação entre discursos. O resultado é uma chave de leitura original, a verossimilhança fantástica, capaz de iluminar tanto contos conhecidos, como O alienista e Teoria do medalhão, quanto romances centrais, como Memórias póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó.

Quando o plausível nasce do desproporcional

O ponto de partida do livro é uma inversão de perspectiva. Em vez de perguntar o que a obra de Machado revela sobre o Brasil oitocentista, o autor pergunta como essa obra produz efeitos de verdade. A resposta passa pela composição de imagens que, à primeira vista, não deveriam caber juntas.

"A verossimilhança fantástica nasce da composição de imagens contraditórias, desproporcionais e incongruentes que tornam plausível, dentro do gênero fantástico, a representação dos vícios e das paixões."

É por essa via que Machado compõe, segundo o estudo, um retrato de tipos sociais cujos vícios estruturam os verossímeis da opinião comum do seu tempo, referentes à filosofia, ao direito, à ciência, às estéticas romântica e realista, à política e à moral. A linguagem que descreve esses tipos realiza uma exposição sério-cômica das ruínas do império oitocentista brasileiro. A sociedade está lá, mas filtrada por uma técnica retórica que transforma regimes de verdade em matéria ficcional.

Junto da verossimilhança, o livro destaca a ironia, entendida como figura de indeterminação. Ela relativiza os discursos que personagens, narradores e leitores tomam como verdadeiros, sejam eles científicos, filosóficos, políticos ou morais. O sentido, nessa leitura, não se fecha: permanece instável, e é justamente essa instabilidade que dá à obra sua força.

Um diálogo franco com a crítica consagrada

Boa parte da contribuição do livro está no modo como ele se posiciona diante da fortuna crítica machadiana. Os capítulos iniciais percorrem, com cuidado, as leituras que moldaram a recepção do escritor e apontam seus limites.

  • Sílvio Romero e José Veríssimo: o autor critica as abordagens biográficas, naturalistas e nacionalistas que deixaram de lado a linguagem como matéria literária.
  • Antonio Candido e Roberto Schwarz: o estudo contesta a interpretação da forma machadiana como reflexo ou transposição das relações sociais brasileiras.
  • Alfredo Bosi e Alfredo Pujol: examina-se a consolidação de Machado como moralista, psicólogo realista e intérprete da sociedade.
  • Hélio de Seixas Guimarães: o livro recusa a centralidade do leitor empírico e privilegia os efeitos retóricos e ficcionais da interlocução narrativa.

Não se trata de descartar esses autores, mas de questionar leituras que subordinam a forma à realidade histórica. A tese é sustentada por fontes clássicas e contemporâneas, e o percurso deixa claro o domínio que o autor tem da retórica, da teoria literária e da tradição ocidental que alimentou a escrita de Machado.

Loucos, aranhas e medalhões: os contos como laboratório

Depois do debate crítico, o livro mergulha nos textos. Os contos funcionam como um laboratório em que a verossimilhança fantástica aparece em estado concentrado. Em Ex cathedra, a loucura teórica de Fulgêncio serve para subverter, com ironia, os discursos de autoridade e de racionalidade. Em O segredo do bonzo, o autor identifica uma crise da verossimilhança: o conto ironiza a poética fundada em máximas, sentenças e opiniões persuasivas.

O Conto alexandrino mostra a transformação cômico-fantástica de discursos científicos e filosóficos em narrativa. A sereníssima república, com sua república das aranhas, é lida como alegoria fantástica da opinião, da política e da corrupção. E O alienista ganha uma análise que articula loucura, discurso científico e a circulação imitativa de opiniões como fundamentos da forma fantástica.

Uma segunda frente reúne memória e ironia. Aqui entram Teoria do medalhão, examinado como imitação satírica dos discursos sociais e retrato da formação do medalhão pela dissimulação retórica, e Fulano, em que a ironia desestabiliza identidades e opiniões socialmente reconhecidas. O argumento central desse bloco diz respeito ao papel do leitor.

"A memória dos lugares-comuns retóricos e literários é condição para que o leitor reconheça os efeitos cômicos, irônicos e fantásticos da escrita machadiana."

Brás Cubas, Aires e os sentidos que não se fecham

Os romances ocupam a parte mais extensa do estudo. Em Esaú e Jacó, o autor analisa a construção de sentidos instáveis por meio de imagens e discursos contraditórios, a linguagem sofística, a relação entre palavras, imagens e convenções, e os lugares de memória (referências literárias, históricas e retóricas) que estruturam a memória artificial do romance. O conselheiro Aires surge como mediador da instabilidade das crenças de Pedro e Paulo, e o inexplicável, tão caro ao narrador, é lido como efeito da indeterminação narrativa.

Com Memórias póstumas de Brás Cubas, o foco se desloca para a pena da galhofa e a tinta da melancolia. O Delírio, o defunto autor, a mistura de registros, a narrativa como imitação de imitações e produção ficcional do falso, a descrição das paixões viciosas dos caracteres à luz da tradição retórica: tudo é examinado como princípio formal. O livro dedica atenção ao narrador não confiável, à distância entre narrador, autor ficcional, autor real e leitor, e ao célebre episódio da borboleta preta, interpretado como encenação irônica de valores morais.

Há ainda capítulos sobre o conto Último capítulo, sobre a tradição erasmiana do Elogio da loucura em Machado e sobre o triângulo amoroso expresso pelo descompasso do estilo. Um dos momentos mais instigantes aproxima o humanitismo de Brás Cubas e o conto Pai contra mãe, tratando o humanitismo e a escravidão como objetos de representação irônica e fantástica, antes de mostrar a circulação intertextual e a função cômica desse discurso filosófico em todo o sistema narrativo machadiano.

Um livro para quem estuda, ensina e relê Machado

O fecho da obra, sob o título machadiano de As rabugens de uma semi-demência, sintetiza o percurso: loucura, ironia, indeterminação e crítica aos regimes de verdade compõem um sistema. Nas considerações finais, o autor reafirma que a linguagem fantástica e irônica de Machado transforma discursos sociais, filosóficos, científicos, políticos e morais em matéria ficcional indeterminada.

O público que mais se beneficia é amplo dentro da universidade. Pesquisadores de literatura brasileira vão encontrar uma interlocução direta com os nomes centrais da crítica machadiana. Estudiosos de retórica e teoria literária terão um caso exemplar de aplicação de conceitos clássicos a um autor moderno. Professores de graduação e de pós-graduação ganham um repertório de análises de contos e romances que costumam frequentar as ementas. E leitores atentos de Machado, que já desconfiavam de narradores como Brás Cubas e Aires, terão argumentos sólidos para essa desconfiança.

Trata-se de uma contribuição relevante para os estudos literários brasileiros, que convida a reler Machado não como espelho de seu tempo, mas como mestre de uma arte retórica que expõe, rindo e lamentando, as verdades que esse tempo tomava por certas. Quem quiser acompanhar o trabalho do autor pode encontrá-lo no Instagram, em @antoniojneto. O livro já está disponível no catálogo da Dialética.

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A verossimilhança fantástica no discurso narrativo de Machado de Assis já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

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